quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Caminho de casa

Vi o dia nascer no aeroporto de Confins, vejo o dia acabar a caminho do aeroporto do Galeão. Um risco rosado no ceu azul de verão avisto enquanto o carro vai pela Linha Vermelha e sinto o indefectivel cheiro de enxofre, ou de podre, mas que tanto marcaram minha saídas e chegadas do Rio.
Não sei expressar como estou. Ou sou muito forte ou tão fragil que me escondo em um personagem. Talvez em algum momento eu desabe. Estou exausta. Sai de casa para pegar a balsa de 1 da manhã, um voô às 3h30 para BH, depois outro às 7h40 para o Rio e fiquei esperando com minha irmã até às 14hs para a visita na UTI e encontrar mamãe dormindo.
Não mamãe isso não. Acorde só um pouquinho pra me ver. O corpo magrinho coberto por aventais. Onde estão as lindas camisolas que papai presenteava e sempre repetia a mesma piada : "pedi para a vendedora experimentar para ver se ficava bem". Esse era o maximo de insinuação de sensualidade que ouvi em casa. E hoje mamãe esta envolta em panos. Os braços presos a cama transpiram muito. Estranho, só os braços, como se um liquido em forma de suor fosse saindo do corpo apesar do frio do ar condicionado. As mãos estão inchadas de tantas picadas para injetar soro. Penalizada com a cena rezo em silêncio implorando para mamãe acordar. Ela não escuta. Insisto mais um pouco, agora chamando quase que em seu ouvido e aos poucos vai despertando. Vejo na máquina sob a cama que os numeros marcando o batimento cardiaco aumentam muito ao me ver. Desculpe interromper seu sono, mas filhos querem sempre atençao e eu não poderia voltar pra casa sem falar algumas coisas. Lucida presta atenção às graças que falo. Posso ate ouvir sua voz dizendo " uma palhaça" seguido de um risinho curto. Mamãe nunca foi de exteriorizar sentimentos. Continuo falando, meus irmãos falam tambem, fazem sinais e ela se mexe na cama querendo sentar. Ainda não dá mamãe. O enfermeiro avisa que o tempo da visita esta acabando. Ainda faço uma prece em voz alta. Dou um beijo e ela balbucia : Deus te abençoe. Eu respondo : Deus te abençoe tambem, eu te amo.
Volto pra casa e ja não sei quando nos veremos de novo. Por enquanto mamãe ficamos combinado que vamos nos ver qualquer dia.


Léa Penteado enviado do meu Blackberry

3 comentários:

  1. O amor pela mãe é o sentimento mais forte e duradouro em nossas vidas, apesar do que sentimos pelo pai que, no meu caso, partiu primeiro e deixou tantas lembranças boas.

    Sentir a mão dela e seu afago no ombro satisfazem a partes nossas muito primitivas e o aconchego e sentimento de "pertencimiento", comno diziam na EBAPE, permanece.

    Léa, sua mãe lhe deu a Luz tanto a ilumina e que certamente voce deixará para o Bernardo e os que dele surgirem. A chama que ora se fragiliza será sempre a referência do que voce um dia foi e do que ela lhe deu.

    Que Deus escolha o melhor caminho para ela e que ilumine o seu nessa viagem tão maravilhosa que é VIVER e levar conosco a bagagem que nossas mães nos entregaram.

    ResponderExcluir
  2. Mãe é Mãe - ainda não sou uma, mas dizem que quando nos tornamos a entendemos muito mais...
    Geralmente bons filhos são gerados por boas mães!
    Beijos no coração! Força, Luz...

    ResponderExcluir
  3. Querida Léa, só agora vejo com calma seus depoimentos sobre a doença de sua mãe.
    Doloroso...
    Espero que -- seja lá o que lhe espera nos próximos dias -- você possa suportar com calma e paz.
    bjs, da amiga
    olimpia

    ResponderExcluir