domingo, 14 de junho de 2009

De Herbert à Cacilda

Zapeando a tv no meio da tarde sábado deparo com uma cena que a princípio achei insólita : os Paralamas no programa Raul Gil. Lá estavam Herbert, Bi e Barone assistindo um desfilar de jovens talentos interpretando suas canções, intercalados com depoimentos de amigos da vida toda e o Raul com seu microfone de ouro pendurado no pescoço num sorriso de satisfação total. “Puxa vida, os Paralamas no meu programa, vocês estão pensando o que ?”era isso que parecia dizer na entrelinhas. E ali fiquei vendo as músicas referencia ao rock nacional nos últimos quase 30 anos, os depoimentos de roqueiros que jamais imaginei que zapeassem o Raul e os agradecimentos emocionados do Herbert e seus “irmãos”. E no final, como todo programa homenagem que se preze as mães, os irmãos, as mulheres e os filhos mandaram recados singelos e profundos. Herbert, Bi e Barone choraram. Eu e o Brasil que viu também.
Fiquei refletindo na importância da TV aberta. Nada disso funcionaria na MTV, ou no Multishow. Para fazer TV emoção não se pode temer a breguice, é preciso desprendimento. E ali no palco estavam as verdades de Raul e os Paralamas, cada um com a sua e totalmente coerentes. O Herbert cadeirante ficou nos meus pensamentos até hoje abrir a Folha de São Paulo e encontrar uma bela matéria na coluna da Mônica Bérgamo na Ilustrada (entrevista a Diógenes Campanha). As fotos mostrando o enfermeiro empurrando a cadeira rampa acima para entrar no palco, os comentários doces do artista sobre a sua limitação física... Fala sobre a vida sexual desde a morte da mulher há 8 anos. “A minha vida sexual com a Linda foi absolutamente linda, maravilhosa, mesmo. Eu não sinto aquele drive tarado, a energia foi canalizada para a música”. Reza com os filhos antes de dormir. “O que sempre tive de mais precioso foi o convívio com meus filhos.” Divide os quartos de hotel com o enfermeiro. Enfim, vida que segue, que cria e que o leva aos palcos em mais de 180 shows nos próximos 2 anos.
Entretanto o mais incrível é que outro lado da página com a entrevista do Herbert estava a lembrança de Cacilda Becker nos 40anos de sua morte. Não vi Cacilda em cena. Foi grande estrela do teatro brasileiro e morreu aos 48 anos devido a um aneurisma. Começou a passar mal em cena, mais de 40 dias em hospital e se foi no dia 14 de junho de 69. Encarou a ditadura militar, protegeu colegas e até hoje é referencia. Quando grande estrela eu ainda tateava no jornalismo. Mas duas frases de sua autoria acompanham a minha vida.
“Não me faça fazer de graça a única coisa que sei fazer cobrando.” Ela se referia ao teatro e eu aos meus textos, minhas ações de assessora de imprensa, criadora de projetos, que hoje uso de forma menos rígida do que aos 30 anos. E a outra frase, faz parte do meu hoje : “Tomei a decisão de sacrificar tudo pela minha carreira. Acho que valeu a pena.”
Que belo fim de semana paulistão!

2 comentários:

  1. Léa, querida,
    Veja você como são as coisas. Num primeiro momento, parece tão estranho os Paralamas no Raul Gil. Mas, que nada, Paralamas (e boa parte do tal do pop rock dos anos 80) tem absolutamente TUDO a ver com programas populares como Raul Gil, Bolinha, Chacrinha, Faustão (na época, "Perdidos na Noite")... e até o Bozo! Na era pré TV a cabo, era nesses programas que a fama dos hoje respeitadíssimos Paralamas foi sendo construida.
    Portanto, quando, também aleatoriamente, sintonizei na Band no sábado, achei super normal vê-los lá.

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  2. Léa: excelentes comentários!
    Tantos os vindos do sentimento como aqueles vindos da razão e da vivência na mídia.
    Beleza!
    nos vemos no sábado, então

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