quarta-feira, 27 de maio de 2009

O rádio da Rosalina

Cresci ouvindo rádio, música caipira e notícias do mundo, no rádio da Rosalina. Ela era magra, pequena, trabalhava na minha família há muitos anos e tinha como relíquia um pequeno rádio. Naquele tempo não havia rádios à pilha, era uma pequena caixa de madeira laqueada em tom marfim e na frente tinha uma telinha de tecido marrom por onde saía o som e um dial de plástico com os números das estações em AM, ondas médias e curtas, assim o locutor falava. Funcionava com válvulas, tinha um curto fio de borracha escura e Rosalina fazia todo o serviço da casa ouvindo o rádio que era transportado por todos os cômodos. Um rádio móvel que procurava saídas de energia para se instalar. Haviam tomadas de porcelana por toda casa, quase que exclusiva para o rádio da Rosalina: no corredor do andar superior de onde saíam os quartos, na varanda da sala para que o som chegasse até o jardim e na cozinha. Bom, a cozinha era um caso à parte. Como ela passava ali grande parte do tempo, papai mandou fazer um nicho em cima da pia, uma espécie de altar em mármore onde o rádio ficava cantando e falando enquanto ela cozinhava o feijão mais cremoso que comi na minha vida e fritava bifes acebolados que ainda hoje, mesmo comendo pouquíssima carne vermelha, ainda me dá água na bola.
O quarto da Rosalina, no fundo do quintal era um lugar mágico. Chegava-se até lá passando por um cômodo mistura de depósito com espaço para passar roupa que era um encantamento para qualquer criança. Revistas velhas, malas de papelão guardadas umas dentro das outras, pedaços de trapos, móveis quebrados, abajur desmontado, tudo que não se tinha coragem de jogar fora ficava ali. Eu era capaz de passar dias naquele mundo garimpando preciosidades como botões perdidos no fundo de alguma caixa, pequenos vidros empoeirados perfeitos para compor o meu laboratório de experiências onde utilizava pedras de goma, anil e mercúrio cromo como matéria prima para fazer “comprimidos” que secavam ao sol. Mas para mim aquele lugar era só passagem. Qualquer movimento que denotasse alguma “pesquisa” era interrompido com um grito: “menina, não mexe aí...”.
Eu respirava fundo, atravessava aquele campo minado e o único consolo era saber que estava indo para um local ainda mais sedutor: o quarto da Rosalina. Duas camas de solteiro, uma dela, outra da filha, um armário velho cuja porta só era fechada com um solavanco e ajuda de um pedaço de papelão dobrado e preso na parte de cima, uma pequena estante que se salvou de um ataque de cupins, duas cadeiras de madeira e uma mesinha de cabeceira. Era na mesinha coberta por uma toalhinha de croché feita pela vovó, que ficava o rádio e de onde o som se espalhava saindo pela janela e passeando no meio das roupas no varal.
Quando meus pais saíam à noite, meus irmãos mais velhos ficavam dentro de casa e eu tinha o privilégio de ficar em seu quarto até a hora deles voltarem. Ela estendia uma colcha de retalhos muito limpa em sua cama e eu ficava deitada enquanto ela fazia saias godê guarda-chuva para a filha Araci, que preferia ficar dentro de casa com minha irmã mais velha. Rosalina era criativa na costura. Pegava a grande bacia de alumínio onde colocava as roupas de molho, limpava bem e emborcava em cima do tecido bem esticado no chão. Com um lápis riscava a circunferência da bacia, depois dobrava o tecido em quatro partes e bem no centro fazia um buraco onde seria a cintura. Era um trabalho de grande engenho e perícia, que jamais esqueci. Depois da saia cortada, Rosalina sentava em um canto do chão e costurava a mão, com a maior delicadeza. Fazia tudo isso ouvindo rádio.
Acontece que a relação de Rosalina com o rádio era ainda mais profunda e só muitos anos depois, acho que foi quando me apaixonei pela primeira vez, vim compreender o que acontecia. Em determinadas noites, Rosalina sentava ao lado do rádio e com muita paciência ficava rodando o dial até sintonizar uma radio no Paraná onde cantores locais se apresentavam. Quando o locutor anunciava “e agora com vocês Trajano Militão, o rei do violão” ela ficava lívida, como que hipnotizada, seu rosto não movia um músculo. Como na brincadeira de criança, ela virava estátua e eu sabia que estava viva, pois caiam lagrimas dos seus olhos. Não fungava, não se debatia, nem soluçava ou gemia. Apenas deixava a água rolar como se estivesse esvaziando o seu coração. Eu me encolhia na cama, ficava quieta esperando a música acabar e havia aprendido que depois do último acorde daquela canção caipira lamurienta, tudo voltava a ser como antes. Rosalina limpava os olhos, balançava a costura que tinha no colo como se sacudisse as lembranças e voltava atenção para a agulha. Às vezes me oferecia água da moringa num copo de plástico com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, outras tirava alguma bala do fundo de alguma caixinha como a premiar o meu bom comportamento neste momento tão intimo. Assisti essas cenas algumas vezes e jamais comentei em casa. Nem mesmo com sua filha que preferia ficar deitada em minha cama conversando sobre namorados com minha irmã.
Até que um dia Rosalina foi emagrecendo ainda mais e eu de longe acompanhava o movimento de saídas para o médico, até levaram-na para o hospital. Colocaram uma outra pessoa para ajudar nos serviços de casa e o rádio silenciou no quarto. Semanas depois papai chegou com a novidade que ia levar Rosalina para a cidade onde ela havia nascido. Em poucos dias arrumaram as malas, papai comprou passagens no trem leito e eu nem lembro quando saíram de casa. Acho que fizeram isso em algum momento em que eu estava na escola, pois quando voltei encontrei o seu quarto vazio. Os colchões enrolados em cima do estrado, a porta do armário caída, a estante apenas com a moringa de água e na mesinha de cabeceira a toalhinha de crochê. O rádio foi com ela, assim como seus sonhos e a esperança de reencontrar a voz que a fazia chorar. Um dia o telefone tocou, era alguém avisando que Rosalina tinha morrido. Mamãe então contou que quando descobriram o câncer era grande demais, não havia cura e fez o que ela pediu: voltar para o interior do Paraná e entregar a filha ao pai, o rei do violão Trajano Militão.

2 comentários:

  1. Voltei também no tempo e lembrei da minha Babá e da Angelina ( cozinheira lá da nossa casa ) também com o radinho nas radionovelas.Era basicamente o som das músicas e das novelas e não me lembro de escutar desgraça,golpes e corrupção.
    O tempo das Rosalinas,Babás e Angelinas era bem mais puro!

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  2. Emocionante. Não é a minha estória, mas é a minha estória e de tantas outras de nossa idade, pois essas coisas doces e delicadas, são memórias dos anos cinquenta, que você descreve com preciosismo.
    Doeu o coração de uma saudade não sei de onde.
    Obrigada por essa viagem coração a dentro.Beijo, Marilia

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