quinta-feira, 21 de maio de 2009

Braços de fora

Joguei mais uma peça de roupa em cima da cama e só então percebi que o guarda-roupa estava praticamente vazio. Saias, vestidos, blusas, calças, xales, lenços, formavam uma enorme montanha no mais autêntico estilo nada serve, nada combina. Depois de meia hora desfilando frente ao espelho para encontrar uma roupinha simples para ir ao cinema a ficha caiu. O problema não estava na cintura que aumentou uns centímetros, ou nos braços que já não agüentam mais ficar fora das mangas na baixa estação, mas a insatisfação era única e exclusivamente minha.
Não conheço mulher que não tenha passado por uma situação dessas. Tem dias que nada serve nada presta nada vale, nem nós mesmas. São dias que poderíamos pular no calendário, esquecer que existiram, não valem nem guardar como experiência de vida. Mas são dias que existem, às vezes muito mais do que desejamos. Jamais assisti um filme ou li em livros, a cena de um homem frente ao espelho colocando e tirando compulsivamente uma gravata, ou uma camiseta básica para sair e encontrar amigos.
Chego a acreditar que o privilégio da transformação, tirar a pele e se recompor como um camaleão é única exclusivamente feminina. Vem no mesmo pacote do processo da fêmea cujos óvulos caem no útero e se não forem surpreendidos na trajetória se escamam, dissolvem e jorram mensalmente por entre nossas pernas. Passamos boa parte de nossas vidas nos recompondo mês a mês, por dentro e por fora, experimentando as mais incrédulas sensações, como se tivéssemos permanentemente um espelho à nossa frente esperando qual personagem irá se refletir.
Somos e fomos uma coleção de personas. Há pouco tempo abri uma caixa com velhas fotos e fiquei procurando um ponto em comum em todas aquelas carinhas que se transmutavam ora em cabelos claros, outras escuros, longos, curtos, lisos, ondulados... Fiquei analisando aonde eu realmente me reconheceria em qualquer circunstância e só então pude perceber que me encontro num certo jeito de olhar a vida com muita vontade. Um olhar que às vezes se acanha, outras encara, mas com a coerência de enfrentar o que vier sem medo. Não importa se foram os tempos de vacas gordas ou magras, se a roupa era chic de boutique ou costurada pela vovó, se o cenário de fundo era Nova York ou a Tijuca, se sozinha ou acompanhada, mas em todas aquelas fotos o olhar refletia a alma de quem acredita que viver vale a pena.
E é por isso que fico até envergonhada quando vejo na cama um monte de roupas empilhadas. Seda, linho, crepe, jeans, chita, algodãozinho barato, jersey, tudo se mistura e qualquer dia vai virar trapo. Não tem escapatória, é o destino do pano que nem traz alguma verdade ou faz diferença. Serve somente para cobrir um corpo e dar algum status. E eu ainda fico ali, vendo o que serve e o que não serve, combina ou não combina, sendo que a sensação de desconforto é puramente interior. Melhor seria esquecer o cinema, ler um livro, dormir mais cedo ou simplesmente trabalhar na consciência de que o verdadeiro poder esta dentro de mim. Enquanto ficar brincando de por e tirar roupinha, como fazia com as bonecas de papelão que recortava das revistas que vinham no jornal de domingo, nada vai prestar ou saciar a minha busca...
Busca de roupa interior, de algum véu que se rompeu em algum momento e me deixou desnuda na confiança da luz que cada um carrega dentro de si. Algo invisível, intangível, um brilho além desta vida, que será sentido profundamente quando conseguir sem ressentimentos ou comparações deixar os braços de fora em qualquer estação.

Um comentário:

  1. Esse texto já promete o que vai ser esse blog!
    Adorei tudo e matei a saudade das duas.
    Bjs

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